25 de outubro – Mil tsuru

“Hoje é Dia de Cultura Japonesa!” – Capítulo 70

O dia 25 de outubro de 1955 é a data de falecimento de Sadako Sasaki, uma garota japonesa afetada bela bomba atômica de Hiroshima, que se tornou um símbolo da paz.

Sadako é conhecida pela história dos mil tsuru (grou) feitos de origami (dobradura). O Monumento das Crianças à Paz (原爆の子の像, Genbakuno kono zou, literalmente Estátua da Criança da Bomba Atômica), localizada no Parque Memorial da Paz de Hiroshima, foi construído em 1958, baseando-se na história de Sadako.

Os tsuru são as aves da família dos Gruidae, popularmente conhecidos como grous. No Japão, é considerado símbolo de longevidade, junto com a tartaruga. Tanto que existe a expressão: “Tsuru wa sennen. Kame wa mannen” (鶴は千年、亀は万年), que significa: “O grou vive 1.000 anos. A tartaruga vive 10.000 anos”. Embora não cheguem nem perto disso na vida real, de fato são considerados animais com tempo de vida acima da média.

O tsuru e o kame (tartaruga) são presenças frequentes em lendas, histórias infantis ou canções tradicionais japonesas. Muitas vezes o tsuru é traduzido como garça (サギ, sagi – leia-se sagui –, ave da família dos Ardeidae), provavelmente pela semelhança visual (embora os grous sejam em média maiores que as garças), e talvez pela familiaridade, pois os grous não são encontrados na América do Sul. Um conto muito popular entre os japoneses e na comunidade nipo-brasileira é o “Tsuru no Ongaeshi”, ou “A gratidão da garça (grou)”.

O oriziru (折り鶴, tsuru em dobradura) é uma das formas mais populares de origami (dobradura). O senbazuru (千羽鶴, mil tsuru) é um conjunto de grande quantidade de orizuru conectados por um fio. O mil, neste caso, significa “grande quantidade” e não quer dizer que deve obrigatoriamente ter mil.

Originalmente era feito como oferenda para templos e santuários desejando o aperfeiçoamento das artes das meninas. Mas atualmente é comum fazer o senbazuru para desejar longevidade, recuperação da saúde, ou para encorajar as pessoas que passaram por desastres naturais. Após a morte de Sadako, o senbazuru ganhou um novo simbolismo, de oração pela paz.

Sadako Sasaki nasceu em 7 de janeiro de 1943. A bomba atômica de Hiroshima foi lançada dois anos depois, e o epicentro foi próximo à sua casa. Cerca de 1,7 km distante. Ela foi atingida também pela “chuva negra” radioativa. Sadako cresceu aparentemente saudável, com bom desempenho nas práticas esportivas escolares. Mas em fevereiro de 1955, recebeu o diagnóstico de leucemia maligna aguda no linfonodo e teria menos de um ano de vida.

Em agosto de 1955, recebeu orizuru de seus colegas e decidiu ela mesma dobrar os mil orizuru, acreditando que recuperaria a saúde ao fim deste processo. Teria concluído os 1.000 tsuru ainda em agosto e partiu para o segundo conjunto. Mas ela faleceu em 25 de outubro do mesmo ano, após seu último desejo, o de comer ochazuke (arroz com chá).

Sobre a quantidade de orizuru feito por Sadako, o Museu Memorial da Paz de Hiroshima divulga que foi superior a 1.300. O musicista Yūji Sasaki, sobrinho de Sadako que nasceu em 1970, diz que foram mais de 2.000 tsuru. Porém, alguns livros e dramatizações recontam a história como se ela não tivesse conseguido cumprir seu objetivo. Muitas pessoas acreditam nestas versões fictícias em que Sadako teria dobrado menos de mil tsuru.

O sobrinho Yūji Sasaki compôs a canção “INORI” (oração / prece) em 2009, em homenagem à Sadako e com o desejo pela paz. Yūji solicitou à cantora Kumiko para que cantasse esta canção e o CD single foi lançado em fevereiro de 2010, gerando grande repercussão ao ponto de Kumiko ser escolhida pela primeira vez em sua carreira para participar da 61ª Edição do NHK Kōhaku Uta Gassen, o programa musical de TV historicamente mais importante do Japão.

Uma questão pouco comentada é sobre como descartar o senbazuru que já cumpriu o seu papel. No Japão, é comum realizar o “otakiage” (お焚き上げ), um ritual de culto e queima de talismãs xintoístas (御札, ofuda) ou amuletos (お守り, omamori) que não podem ser descartados. Como muitas vezes os desejos e sentimentos das pessoas é depositado nos senbazuru, é comum levá-los ao otakiage, em vez de simplesmente jogar no lixo. Há também a possibilidade de fazer apenas o culto/agradecimento simbólico e reciclar o papel utilizado.

Embora seja comum enviar o senbazuru para sobreviventes de acidentes naturais, atualmente se considera uma atitude inconveniente enviar os mil tsuru imediatamente após catástrofes. Por mais que a intenção seja boa, as vítimas que recebem o senbazuru estão numa situação que não possuem sequer abrigo ou alimentação satisfatórios. Então o senbazuru chegaria apenas para ocupar espaço. E como os japoneses têm esse pensamento de não simplesmente descartar os sentimentos confiados no tsuru, a pessoa que recebeu gastará energia em como descartar o senbazuru de forma adequada, o que seria um custo a mais para as pessoas que já perderam muito com o desastre. Uma possibilidade seria não enviar o senbazuru de imediato, mas esperar a situação se estabilizar.

Em 25 de janeiro de 2019, aconteceu o rompimento da barragem em Brumadinho. A JCI Brasil-Japão, com apoio da Fundação Japão em São Paulo, realizou uma oficina de orizuru, entre os dias 12 e 20 de abril, como uma ação de solidariedade às vítimas de Brumadinho. Ao todo, foram dobrados 2.118 orizuru que foram entregues à Prefeitura de Brumadinho, no dia 11 de maio de 2019, juntamente com o painel de oshibana-e da artista Alice Imai.

Desde o início da pandemia, em 31 de março, Thaís Kato Sensei, professora de Orinuno da Aliança Cultural Brasil-Japão realiza o Projeto “Tsuru – Ação pela Vida”, com lives diárias fazendo o tsuru com diversos convidados, trazendo um momento de descontração todas as manhãs, com o desejo de saúde e paz para todos. A foto do orizuru branco que ilustra este artigo é obra da Thaís Sensei. Sigam o Instagram @thaiskatorigami para acompanhar as lives, sempre às 9h30 da manhã.

 


 

Veja também nossos artigos anteriores:

6 de agosto – Hiroshima (Capítulo 17)

1º de setembro – Prevenção de Desastres (Capítulo 34)

23 de setembro – Sino de Nagasaki (Capítulo 50)

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